Uma vida simples e suficiente

Acumulo pilhas de livros por ler. Tantos que mal pude trazer a metade comigo em minha última viagem de Manaus à Minas Gerais.

No entanto, voltei recentemente de uma rápida ida à São Paulo. Na rodoviária, uma feirinha de livros. Passeei pelo pequeno espaço. Eu queria algo fácil. Um livro que eu pudesse começar e acabar ali mesmo durante a viagem de ônibus. A ideia de mais um livro intocado me apavorou. Deparei-me, então, quase escondidinho, com “um dia, uma vida”, subtítulo: seleção de obituários da Folha de São Paulo, histórias de 150 pessoas. Fiquei intrigado. Poderia ser este mesmo.

Não estava preparado, porém.

Ah! A morte… a certeza maior de tudo o que se vive. Pois quando se nasce já morre um pouco. E quando a morte chega não há o que se possa fazer. Ela chegou há muito tempo para as pessoas que compõe este livro cujas breves biografias trazem histórias de indivíduos – quase ou completamente – desconhecidas. Alguns não eram famosos, outros até que sim. Carlos Roberto dos Santos é desconhecido por muitos. Exceto por mim. Sofro caladinho. Ah, como sofro! Sofro porque o mundo é grande demais e jamais saberei de todas as histórias. Porque a vida pequena, simples e acolhedora é que é boa. Tão boa que floresce do pouco de quem a vive. Floresce dentro do peito. Floresceu em Carlos Roberto dos Santos cuja morte tão insignificante jamais pôde anular sua trajetória dura, suada.

Transcrevo do livro o que foi um início, meio e um fim – um fim que se não fosse trágico, seria cômico. Podemos amar quem nunca chegamos a conhecer. Amo, portanto, Carlos Roberto dos Santos e acumulo a imensurável vontade de poder tê-lo conhecido.

Corria feliz entre as bombas de gasolina

“A família diz que quem conheceu Carlos Roberto dos Santos quando mais jovem e o via nos últimos tempos não o reconhecia. Havia sete anos ele deixara de beber – e sua vida mudou da água para o vinho. O vício era visto por todos como o seu maior defeito.

Nascido no Tatuapé, em São Paulo, ele passou lá uma infância de criança livre: gostava de brincar de bola na várzea e era desde aquela época “fanático roxo” pelo Corinthians, com direito a camisas, bandeiras e pôsteres.

Casado, foi viver no Itaim Paulista. Na sua casa simples, ele organizava grandes churrascos para a família e os amigos, durante os quais esbanjava piadas. Foi uma fase feliz da sua vida. No último encontro, chegou a brincar com a situação financeira, dizendo que “no próximo Natal ninguém vai comer frango, mas coisa bem melhor”.

“Todas as profissões ruins ele teve”, conta uma pessoa da família do frentista, que foi também pedreiro e encanador, sempre acompanhando o mesmo patrão, Osvaldo, amigo de infância e o dono da empresa hidráulica e do posto de gasolina onde trabalhou.

Ele gostava do emprego e nos últimos dias corria feliz por entre as bombas de combustível, dizendo: “Minha moto vai chegar na segunda-feira!”. Mas ela não chegou.

Testemunhas dizem que o viram abrir o celular enquanto descarregava 15 mil litros de combustível de um caminhão. A explosão o deixou com 76% do corpo queimado. Ele permaneceu sedado no hospital até o dia 22 de novembro, quando morreu, aos 45 anos. Deixou quatro filhos, um neto, uma esposa triste e um carnê para pagar.”

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