Tempestades

Muitas vezes eu funciono de uma maneira que não me agrada. São os hiatos. Se não escrevo aqui com a frequência que eu gostaria é porque eu já escrevi: preencho as lacunas das folhas em branco mentalmente. É como se eu estivesse relatando a outrem. A diferença é que essa pessoa é inexistente. Quando na verdade sou eu mesmo. E, ao escrever para mim mesmo, acabo por nadar num mar traiçoeiro. Não que eu me agrade disso. Não, não. Mas a coragem de escrever noutro lugar é remota ainda que eu esteja defronte a uma folha de papel em branco. É o meu pecado secreto que agora divido. Pode-se chamar: preguiça. Como quando tenho uma ideia para um livro ou um conto. Tão confortável é apenas imaginar-se escrevendo. A ideia revela-se mais atraente que de fato concatená-la. Porque escrever muitas vezes é um sacrifício. No entanto, sacrifícios são necessários. Mas sinto mais receio de sentir raiva do que outra coisa. Não posso continuar a fazer isso. É como um médico. Ele sabe de tudo. A verdade é que ele não pode salvar ninguém deitado em sua cama. Seus conhecimentos não viajarão até um hospital para enfim transformarem-se em algo sólido sobre alguém. Logo, eu tenho que lidar com as consequências. Minha alma clama por este espaço em branco. Quando eu não atendo ao chamado eu caio. No cair é que eu morro sedento de letras.

Comentários