Ser e não ser

Num dia dessa semana eu dormi com medo. Percebi, em pensamento aleatório, que não sou nada no mundo, no quesito fragilidade. Nessa hora senti meu corpo leve como pena. Pena de mim mesmo, também. Toquei os meus braços, meu rosto – e a partir desse dia passei a tocá-lo com certa delicadeza!

No entanto, de fato, sou e não sou. Mas o que? É que viver a partir do momento que se sente é difícil. Mas sentir o que? Senti, desta vez por todas, que hei de ser dado à morte. Pensava eu que não tinha medo dela quando na verdade o tenho. E muito. Viver é andar no deserto. Após andar muito não se aguenta mais. A vida não oferece um canil. Ela, ao seu máximo, fá-lo-á ver uma miragem. A própria vida entrega-lhe a morte de presente. Toda vida é, consequentemente, uma morte. E nunca somos aqueles. Pois através da TV somos mais vivos do que a natureza. Quem morre no jornal das cinco parece nem ser gente de tão distante. Como um filme. É normal vê-los como personagens. Até que… bem, acontece o pior. O homem inventou a pior morte: a tecnologia! Pois lá do céu vem-se à terra, e da terra se vai para debaixo dela. Portanto, estou aqui sentindo-me frágil demais. Porque ninguém quer morrer afinal. A morte é misteriosa. É a experiência mais temida!

É difícil, portanto, marcar um compromisso às oito da manhã e por ventura não chegar nele. Porque no trajeto se morreu. Acredito – e já disse anteriormente também – que nem sente quando se morre, exceto, é claro, pela dor durante o processo. Sair de casa logo torna-se um pesado para aquelas que pensam demais. Já eu penso demais, mas não o suficiente para tal. Apenas foco o meu pensamento no motivo. É, motivo. Pois se nasce com idade zero e se morre aos doze. E ninguém sabe dizer para que lhe fora dado a vida. Ou se morre aos vinte e dois na véspera da formatura ou se morre aos trinta, grávida. Porque é dito que não se deve questionar os motivos de Deus. Mas estes, sobrecarregam minha paz de espírito. Sou parte da morte surpresa? Uma vida que há de ser interrompida? Enquanto pensamos na morte a vida passa e nos leva mais próximo dela. Não sei, portanto, quando, como e onde será.

Quanto a tocar meu rosto com certeza delicadeza: é o ato de finalmente sentir-me humano, pele e osso, ou quem sabe, realmente, uma pena.

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