Pessoas como gatos

Eles são, por grande parte, incompreendidos pois são libertos demais. Há quem espere por eles como quem espera pela chuva num dia férvido sem saber, portanto, se virá. É o vento que sopra para a direita e para a esquerda nunca se sentiu. A água que lhe atravessa os dedos. Impalpáveis. De nada possuem culpa porque é de sua natureza – os felinos, eu digo, irracionais pois não possuem modos, racionais porque amam e o amor é o que rege a vida. Os humanos, por sua vez, são um oceano. Ninguém jamais saberá o seu total conteúdo embora haja extrema disposição.

O afeto é puro quando, e se, vem. Muito pouco, selvagem demais. Enroscam-se, giram e amam incondicionalmente em sua total e perfeita forma. Quem não os compreendem não os amam porque aceitar a total liberdade é então demasiadamente aprisionador. Pela porta aberta ou fechada, hão de passar. Teimosos feito a mula, beiram a terra taurina – controlam suas próprias ações e decisões. Porque derrubam o copo da mesa e o assistem esparramar no chão. Seguem a vida e se for para ser, apenas será. Pessoas como gatos, portanto, comem a ração que querem e onde querem, miam a indignação, a prioridade é o pulo no colo, olham para cima e imploram atenção, esvaem-se, pois, feito nuvem: obtiveram o desejado. Racionais suficientes para tal, porém. Independentes como o próprio ar que se respira. Sem regras – a folha do outono que cai sem segunda ordem pois a primeira é da natureza. Serena e leve, rodopia até confortar-se no solo.

O homem que possui o gato tem, ao seu lado, o mistério – a noite silenciosa, acalentadora. O homem que o possui compreende o tempo e sabe indubitavelmente que ele é a base de tudo. Ou é igual à ele ou depois torna-se. O dono assemelha-se ao gato como uma vida pacata e sóbria. Quem o compreende está no auge da vida porque já foi aprendido lições duradouras daquilo que não pertence a si, daquilo que vai além da própria necessidade.


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