Perguntas de um pai

É delicado. A pergunta de um pai é como um tiro às claras. Lembro-me bem, naquele dia comum na minha casa antes da reforma. Eu estava próximo ao sofá, ou sentado nele se não falta-me memória. Amarrava o cabelo de minha irmã – o que eu adorava fazer. Neste dia algum tipo de festa acontecida na minha casa. Não pergunte-me, porém, que festa era, quem estava ou até mesmo quem eu era. Um dos meus grandes defeitos (sim, defeitos) é o de não ter boa memória para a maioria das coisas. Mas é claro e evidente que a memória de uma criança é eficaz como o milagre. Elas podem não lembrar-se tudo, no entanto os fatos marcantes se fazem presentes a vida toda.

No entra e sai de gente o meu pai passa por mim e para. Sinto agora o que senti. Fiquei constrangido. Sem titubear ele pergunta-me como o arrancar de um band-aid na ferida aberta: “Meu filho é homem, né?”.

Pois eu amarrava um cabelo. O cabelo de minha irmã. Sim, a exatidão. Naquele momento lembro-me de pensar zilhões de coisas nos poucos segundos que eu possuía para responder à pergunta cruel. Se eu era homem? Creio que sim e ainda sou, embora haja o porém – o porém este da incrédula sexualidade. Criança boba que era, eu estava esticando o elástico entre os dedos para laçar novamente o tufo de cabelo. Respondi: “Sim, sou.” No que ele fala: “Então tá bom.”

Silêncio.

É apertado como um abraço mortal, um golpe de briga. Recordo do meu sentimento após esse diálogo. Como um soco no estômago – apenas um deles durante toda a convivência paternal que acabou precocemente. Pois era apenas um cabelo de uma garota. Apenas um garoto amarrando um cabelo. Era proibido? Sim. Havia um passado em tal questionamento. Tornaram-se constantes depois de certo tempo. Os sinais são evidentes. Crianças, embora tentem, não conseguem disfarçar o que lhes é dado de berço: elas mesmas. O homem cruel é cruel e ninguém é capaz de negar. O louco é o louco porque a loucura tem cheiro. A criança é uma criança e é simples. São puras, intactas, até que o tempo passe e se prove o contrário.

Então, desta vez não fora uma pergunta. Fora uma insistência. Que me tirou o sono durante anos até que eu mesmo pudesse amadurecer o suficiente para entendê-la pois, sobre esse assunto, tampouco conversa com alguém. O meu pai quis que eu parasse de lavar a louça. Uma criança com uma esponja na mão. Não!, um menino com uma esponja na mão. E louça na pia. O entra e sai de pessoas até que, de repente, apenas o meu pai ia à cozinha apanhar cerveja. Estranhei. A cada vez, dizia, tentando tirar de minhas mãos a esponja: “Não precisa lavar isso, deixa pra depois, não tem necessidade. Eu argumentava, porém: “A mamãe pediu pra que eu lavasse.” Com o rosto contorcido em desespero falava: “Poxa!” Apanhava sua cerveja e saía. Tentou por outras vezes sem sucesso. Cresci, então. A verdade doeu-me como a dor mais profunda. A dor da paternidade, a dor do filho enfermo da lógica da vida dos que não a viam como uma simples pena e sim como um navio. Tudo era pesado. Ele insistia, pois era feio demais. O seu filho – o único – defronte à pia alisando louças. Que é que os seus amigos iriam pensar sobre isso? Já que já desconfiavam, todos, sem exceção, do filho entortado do sujeito? Minha alma era desesperada pela solução que nunca encontrei porque na verdade não cabia a mim resolver nada. Eu era resolvido. As pessoas, não.

Tenho a consciência de que aqui, neste momento, piso em cascas de ovos velhos e doentes. A vida fora doente, mas não é mais. Enquanto ela durou, eu adoecia cada vez mais, sobrevivendo debaixo da coberta do que não era eu mesmo. Reflito, também, sobre a criação. A criação. Tão refletora quanto a própria luz que desce dos céus. A criação é o espelho da própria criação porque é a partir daí que o mundo é formado. A criação é tão profunda que, para se tê-la, não precisa de muito. Basta, apenas, ser. É o suficiente. Baseado, principalmente, em escolhas. A escolha do que não tem opção, pois quando se é criado comendo capim, acredita-se que nada mais se pode comer, embora o leque de opções seja vasto. É o medo. As pessoas sentem medo de si mesmas, consequentemente de todo o mundo. O mundo (as pessoas) é um só, então. Meu pai fora criado assim. Pai é um nome. Títulos. Assim como mãe é mãe, tio é tio e irmão é irmão. Pessoas que recebem honrarias por serem chamados assim. Mas, apesar de tudo, há algo delicado, o começo de tudo, o princípio: o filho. Para ter-se pai precisa-se ser filho e vice versa. A partir dos títulos sabemos, então, que nada mais é do que uma simples pessoa. Por simples, eu agora me faço mais delicado ainda. É que as pessoas sentem medo de não engrandecer os títulos que, por ordem, precisam para manter-se, quando não merecidos. É o normal. Ele, por si só, bastava-se. Eu, criança, não me bastava. Pois para pessoas como ele o ideal era o comum e o “certo”. Pois essa criança nasceu, enfim, errada – como ouvi de um professor na faculdade de Arquitetura. Ele disse à classe, após insistência da mesma: é que fulano nasceu errado. Nasceu mesmo errado quem usa a opressão como estilo de vida. Expandir-se, portanto, é perigoso. Porém, um ato milagroso e necessário. A cultura por si só tenta manter-se, desnecessariamente, indiscutível.

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