O dia daquelas crianças

Talvez agora que eu tenha tido coragem.

O tumulto da vida me trouxe uma alegria duradoura. No lago estava eu sentado num dos bancos de concreto, os sapatos à grama, as pernas em posição de indiozinho. Trouxera comigo uma caderneta, uma caneta – esquecera porém da água, o dia fervia – e quatro cigarros. Não sabia o que fazer. Então acendi o primeiro companheiro. Às vezes lamento não surpreender-me com um lago e suas pessoas observadoras ou com os patinhos e seus pais andando desajeitadamente e nadando não como cisnes, mas como a beleza exuberante que só eles possuem. Especialmente quando a vida me machuca. Não, a vida não. Quando as pessoas o fazem. Ou eu mesmo.

Enfim, ali. Era o dia das crianças. Apenas dei-me conta quando notei um grupo de cinco meninos brincando de pesca na ilhazinha de areia à beira do lago. Mas o que me arrebatou foi o menino que por mim passou de bicicleta, soltando as palavras “e aí, japonês!”. Tão alegre que estava. Devolvi um “e aí, bom?” enquanto ele assentia e pedalava para juntar-se aos outros. Este menino de camisa laranja e bermuda preta deu-me um motivo. Desceu de sua bicicleta, deitando-a na calçada. Os outros tinham baldes vazios de tinta. Depois percebi que haviam iscas dentro. Punham-nas nos anzóis e lançavam a vara ao longe, cheios de atitude, as ondinhas reverberando. Um deles cruzou as pernas enquanto o fazia. O dono do lago, dono da vara, da linha, da isca e do anzol. Dono do mundo. Em conjunto eles riam e se empurravam. Engraçado mesmo eram suas camisas todas coloridas. Vermelho, azul, verde, branco, laranja. O vento soprava forte. Levava o cheiro do cigarro e trazia as risadas infinitas daqueles meninos. O menor, tão meigo que era, ajoelhava-se, enfiava a mão no balde…

À minha frente uma criancinha de uns quatro anos caía enquanto confrontava um dos patinhos. O pai corria e a pegava no colo, rindo para mim. Eu sabia, eu sabia, dizia. Rimos juntos. Crianças às vezes gostam de machucar animais. De volta aos meninos – eu sorria. Não desejei ser uma criança. Eu desejei ser puro e feliz como eles. Desejei também que de fato eles fossem sempre felizes assim, que o mundo das pessoas grandes não os corrompessem e os transformassem em seres humanos tristes. Pois eu estava sentado ali, fumando cigarros e anotando rabiscos. Não possuía imaginação alguma para escrever. O motivo. E este mesmo era apenas observá-los. O dia não era meu. O dia era delas. Percebi então que pouca coisa se iguala ao afeto de uma criança.

Depois de um tempo, e eu já havia fumado todos os cigarros que trouxera, cada um pegou o seu balde, alguns grandes e outros pequenos, caminharam em direções opostas, alguns caminhando e outros de bicicleta. O menino que me chamara de japonês, tão feliz, pedalou para o horizonte bem devagar acompanhando o menor e mais um outro. Não fisgaram nenhum peixe enfim, mas conseguiram algo muito maior que isso: o meu amor por eles.

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