Entre amor e ódio

Ela no balanço da rede, ouvia o tec tec tecrec, rec, recpoc, poc, poc.

E, ao longe, o gato miava; miau. Fazia-se de surda. Não dava-lhe atenção. A mãe gritava da cozinha; pois, já venha me ajudar, garota!. Audaciosa que era, fazia-se de surda também. Quase que muda, balançou-se na rede como quem navega no mar. Continuamente por minutos, talvez quinte, vinte. Então, levantou-se. Foi de encontro a mãe que num súbito berro fez o gato, atrás da garota, pular. Ela havia percebido, mas não olhara para trás. Andou em torno da mesa redonda. O gato ali lhe seguia. Maldito!, pensou. Pois não demorou. Ele desviou o caminho já na segunda volta e partiu em direção a sala. Sabia, maldito!.

Não era seu, tampouco queria que fosse. Alguém da família que ela não fazia também a mínima de saber deu-lhe de presente a mãe que mal tinha paciência com a filha. Convencida, aceitou com a condição de que ela não cuidaria dele sozinha. Porém, era sozinha que cuidava, pois a garota era o desdenho em forma de gente. Não vou cuidar dele, mamãe, ela declarou algumas semanas depois da convivência com o gato. Você me prometeu, filha!, a mãe a pôs contra a parede. Mas eu nem disse nada. Nada mesmo ela ficou sem dizer com o olhar da mãe. E se calou.

Instantes depois, a garota procurou-o. Lá estava ele sentado no sofá da sala como um rei. A TV desligada. Olhava para o infinito além deste sem dar um miau. Ela sentou no sofá oposto, quieta. Fingiu ódio e fingiu distração pela janela aberta. Imitou o canto dos pássaros. O gato? Ele inibiu a existência da garota de sua vida. Foi então que ela fingiu mais ainda. E levantou, sentou-se no carpete e acariciou os fios macios. Deitou e brincou. Tudo sozinha. O gato fitou-a rapidamente o que espantou-a. Rapidamente tornou a fingir. Maldito!.

Mamãe, não gosto de gatos. Eles são imbecis!, ela gritou. A mãe a mandou calar-se. Imaginou que o gato estaria rindo mentalmente dela o que a faz entrar em estado de raiva potente. Bateu com a mão na bunda do gato, expulsando-o do sofá. Bando de pelos imundos… que nem você, imbecil!, cochichou. Com os miaus ele seguiu de volta à cozinha. Mamãe, não deixe esse imundo pular em cima da mesa!, tornou a gritar. Não implique com o pobre do gato!, ela rebateu com voz autoritária.

Suspirou, suspirou, suspirou. A garota tornou a deitar no carpete. Movimentou os braços e as perna, de olhos fechados, fazendo um boneco de neve. Tanto quanto o gato, ela era brincalhona e peralta. Tanto quanto gato ela era bagunceira e preguiçosa. Tanto quanto o gato reclamava de fome e sede. Pois eles eram semelhantes, então. Separados, enfim, pelo tamanho – pois há crianças que pareçam com cachorro, outras com gatos. Esta era uma felina! Mamãe, estou com fome!. O almoço já estava ficando pronto. Onde ele est-. Sentiu no topo da testa uma lambida áspera e molenga. A garota paralisou. Seu corpo inteiro num instante começou a formigar. Não, não, sim, sim, ah!, seus pensamentos estavam confusos. Devagarzinho, para não espantar o animal, juntou os braços ao corpo. Agora ela era um defunto sendo acariciado pelo temido animal – aquele que não dá amor, nem carinho, senão por breves instante, ainda que verdadeiros. Ela não entendia seu ser. Por não entender, tinha raiva. Ele lambeu, então, o seu nariz. A garota prendeu a respiração. Temia que com um espirro ele fugiria dela de novo. Não, não, sim sim, ah!. O gato, enfim, soltou um miau tão doce, tão carente, tão deliciosamente amigo que pareceu-lhe canto dos anjos. Não acredito nisso… Ela falou em voz baixa. Fora domada. Estava amando. O gato com uma pata sobre seu braço enquanto sua língua lambia as bochechas da garota. Miau, de novo. Eu entendo, imbecil, ela disse. Abriu os olhos. De tão perto ele era um tigre, um leão, um guepardo. Exceto um gato. Ela riu. Riu de amor puro. Virou-se lado para o gato atracasse em seus cabelos e lhe puxasse os fios. Ao fazê-lo, ela riu mais ainda. A mãe ao perceber a brincadeira, espiou do cantinho da porta a cena. Suspirou e revirou os olhos. A garota estava finalmente sendo atendida. Por tanto tempo fingira ódio e distração ao gato que para ela não fazia diferença alguma. Não o queria perto de si, pois sabia que ele iria para outro cômodo em breve e ela ficaria sozinha. Por que os gatos não são como os cachorros?, perguntou-se uma vez. Ela odiava tanto aquele gato, mas o amor que sentia por ele era maior. Fingia desdenho para tê-lo. Fingia desdenho para acumular amor quando ele, enfim, desse-lhe carinhos. E entre risadas e miaus os dois brincaram no carpete da sala enquanto durou até que o gato desse por suficiente e tornasse a viver sua vida solitária. E ela retornaria a fingir distração.

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