Defunto infeliz

O homem estava deitado dentro da caixa marrom ao lado da janela – iluminado, enfim. Coberto por flores de todas as cores, o rosto pálido e inseguro, as mãos cruzadas: união daquelas que um dia tiveram vida própria. Ali ele parecia pleno. Pobre homem, como diziam, morrera de infelicidade. O coração parara de funcionar.

Os familiares e amigos transitavam, silenciosos, de um lado para o outro. No entanto, ninguém chegava tão perto do defunto. Nem mesmo os filhos, pois tão inocentes que eram, brincavam de correr na rua. Ao menos não teriam a noção do que era a morte, ou melhor, do que era a vida naquele momento.

Dentre os que estavam presentes, três mulheres chamavam atenção pelo pranto. Uma em cada canto da sala quadrada. Todos os presentes temiam uma briga em pleno velório que incitaria até mesmo o levantamento do defunto a fim de resolvê-la, já que era o protagonista da odisseia da pequena cidade. E elas choravam… como choravam! Posicionamento individual, cada qual com sua personalidade, estilo de vida e ambições, mas todas com a característica inegável de ousadia. Pois estavam as três amantes no velório do homem-todo-poderoso. As três choravam a perda em conjunto. Poderiam, então, abraçar-se. Agora não havia mais competição, tampouco rivalidade. O relógio não passaria nervosismo na parede para controlar a difícil rotina do pobre homem. Afinal de contas, ele devia atenção à três sujeitas.

Gracilene, tão pobre que era, era a dita oficial – ela recebia atenção privilegiada. As crias corriam na rua, brincando, enquanto ela pensava nos próximos passos da sua recém vida de viúva. Sempre vivera como tal, porém. Dividia o seu ex-marido com outras duas que, além de usarem o pouco dinheiro que o falecido ganhava com o trabalho na casa de eletricidade, tinham a sua quase completa atenção. No entanto, Gracilene era a fixa. Por fixa, não sairia do lugar. Sem dinheiro, sem pai nem mãe, com três filhos puxando-lhe a bainha da saia. Teria mesmo era que aguentar a situação e sem reclamar! Senão passava fome. Na rua, recebia sorrisos e deboches. Era vizinha das amantes. E as amantes entre si também eram rivais. Ainda assim, ela era a pobre coitada. Amável, solidária e humilde, ao contrário de suas concorrentes. Possuía uma paciência incontestável.

Entre um soluço e outro ela questionava-se. Assumiria, enfim, João? Assumir… ela riu, por um milésimo de segundo, mentalmente. Quem deveria assumir quem era o homem, não a mulher. Ele também estava ali – o mais perto do defunto, talvez com dó de sua precoce morte, mas sem grande caso, a morte fora merecida. O defunto causara muito sofrimento.

Acontece que João era pai de dois, dos três. Ele era alto, magro, de condições difíceis também. Todos os presentes ajoelhavam-se defronte à santinha do dinheiro, aliás. O coração de João era feito de ouro puríssimo. Homem bom, de boa índole, amante excepcional, quem dirá como marido. Tão presente quanto o defunto na vida de Gracilene. Tornara-se amigo dos dois. Só ele e apenas ele tinha conhecimento da dificuldade de seduzir Gracilene. Apesar de sofrida, era osso duro de roer. Era fiel, embora carregasse nos ombros um marido que a traía todos os dias. Não sou mulher disso, ela sempre dizia. Então adular tem suas boas consequências. João engravidou-a por descuido, fato que pouco importava. Em tese, seria do marido. Como dizia Gracilene, abençoado-se: o infeliz do meu marido ao menos não engravidou ninguém além de mim. Dividir o pouco que ela tinha seria igual a nada. Migalhas. Mas agora ela sentia-se mais amparada do que nunca ainda que secretamente. O amigo e o chefe do trabalho do defunto chegaram para desejar-lhe condolências. Ofereceram-na ajuda com o que fosse necessário. Apesar de safado, o defunto era assíduo com suas responsabilidades profissionais. O chefe que sabia de tudo, é claro, indagou a viúva sobre a presença das outras duas.

– Ah… eu não ligo…

Há tempos que ela parara de se incomodar. O amor que João lhe proporcionava era suficiente para suprir qualquer outra necessidade. Ela passara a viver os seus dias de queixo levantado, passou a sorrir com mais entusiamo. Naquele momento ela chorava não se sabia o porquê. Velórios, afinal de contas, são sempre infelizes. A comunhão das pessoas afetaram-na.

Aconteceu, então, o ato mais inesperado. Neste momento todos congelaram os seus movimentos. A viúva ia em direção a uma das amantes. Chegou perto em silêncio absoluto, deu-lhe um abraço. Fizera o mesmo à outra. O corpo havia de passar a noite no velório para que no outro dia viessem os restantes dos parentes. Gracilene abraçou as pessoas uma a uma. Recebeu beijos, abraços, condolências. Tudo o que se tem direito quando um cônjuge morre. Logo, a sala se esvaziava a medida que saíam. Restaram, enfim, a viúva, o amante da viúva, e as amantes do defunto.

Na rua, os quatro seguiram direto, descendo uma rua e subindo outra, as crianças correndo à frente deles. Estavam cansados, esgotados. Não havia mais lágrimas para o dia de hoje. Exigia-se descanso. Uma deixou a caminhada ao entrar em casa, então a outra. No final da rua, Gracilene, João e as crianças pisaram, enfim sem o ex-marido, dentro de casa enquanto a rua assistia de camarote a cena absurda. O corpo do defunto nem esfriara direito.

Comentários