Cama vazia

Sua inquietação começara exatamente às 22:30, à porta de casa. Pois, agora, em sua cama, tentava dormir, ou ao menos cochilar. Os olhos da mulher de quarenta e cinco anos de vida e vinte e três de maternidade não fechavam – contra a sua própria vontade. Ela pensou: como diabos não posso mandar em meu próprio corpo? Oras, se quero dormir, deito e durmo. Se quero fechar os olhos, apenas fecho-os. Mas era impossível.

Virava para a direita, para a esquerda num intervalo curto de tempo. A cada movimento do corpo a cama balançava. O marido ao lado gemia. Ela sabia que ele ainda não acordara. Com um pouco mais de insistência ele começaria, então, um discurso, agora às 2h30 da madrugada. Era o que ela evitava.

Mas estava dispersa e insegura demais para pensar em qualquer outra coisa senão no filho. Por Deus, ela só queria entrar em seu quarto e vê-lo dormindo. Então, acuada e quieta, mais uma vez, ela começou a discutir consigo mesma:

– Apenas deixe-o em paz. Você nunca foi adolescente?

– Sim… mas é complicado. Ora bolas, você nunca ouviu falar que quando se é mãe os cabelos ficam brancos mais rapidamente? De preocupação?

– Você está com os cabelos brancos?

– Ai não sei…

Pôs, por total impulso, os pés para fora da cama. Iria definitivamente ao banheiro olhar-se. Os cabelos brancos a preocuparam.

– Não, tudo bem. Está tudo bem. É apenas uma saidinha. Eu conheço os seus amigos. Todos de boa índole, educados. Mas, e se… e se ele estiver bebendo e algo acontecer?

Algumas palavras lhe escapavam à boca. Estava ao ponto de estremecer. O quarto estava escuro feito breu. Janelas de cortinas fechadas. Hoje nem a luz do banheiro acendera. Ela só queria total escuridão e silêncio para, enfim, dormir.

– É, na hora no bucho enorme, ninguém pensa que vai morrer de preocupação… o mundo está tão cruel. Quem é que dorme bem à noite sabendo que o filho está por aí, vagando na rua? Em festa? Céus.

Totalmente frágil, lembrou-se de sua própria juventude. Pois a família gostava de comentar nos almoços de domingo as sapequices da antiga juventude. Por nascença ela era uma praga. Fugia, se fugia! Chegava às quatro da manhã como gato safado. Sem fazer o menor ruído. Mas como a natureza lhe presenteou, assustava-se com tanta facilidade que o seu próprio silêncio a denunciava. Ocorreu então lembrar-se de certa vez que escorregou no tapete da sala, meio caminho entre o quarto e a porta da frente. Com o susto, berrou. Deslizou uma perna para frente e foi. Um espacate malfeito, tão, tão perto do quarto. Ela apanhou feito bicho. E chorou feito criança até não ter mais o que chorar para então adormecer até depois do almoço.

Riu de fininho. A cama tremeu com o movimento contorcido. Estava quase totalmente distraída! Logo tornou à preocupação central de todos os males: o próprio filho. Portanto, murchou novamente como uma flor judiada, sem pétalas e sem vida. Suspirou…

Cinco eternos minutos de, enfim plenitude, como uma paz, se passaram. Pôs um pé para fora da cama, depois o outro. Sentou-se, com um dos seios do lado de fora da camisola, o cabelo armado. Que se dane, vou tomar água, pensou sobre o marido que gemia. Antes de chegar até à cozinha a porta à esquerda era a do quarto do filho. Ela parou bem de frente. O coração acelerado, o cérebro mais ainda, imaginando ali tanta atrocidade quando podia. Ela não evitava. Queria mesmo era sofrer.

Então, tremendo, girou a maçaneta. O filho estava dormindo, silencioso e despercebido. O tênis no chão, a roupa de festa ao lado. Estaria pelado ou muito provável, de pijamas. A mulher enrijeceu; atrofiou-se. Olhou para trás, para frente. Estava sozinha – única e infeliz na casa toda. Sentiu-se solitária, abandonada e maltratada. Queria, pois, receber um beijo de “cheguei bem” do filho em sua cama. Mas mais que isso: queria ter ouvido-o entrar em casa. Ansiava pelo barulho da porta como quem sente fome e recebe comida. Por quanto tempo ele estaria ali, dormindo? Por quanto tempo, na verdade, estaria ela acordada, atordoada e sofrendo? O marido já havia lhe dito: pare com isso, mulher, teu coração é de carne!

Recuou alguns centímetros. Mal podia chegar perto do filho de tanto aperto no peito. Sentia vergonha de si mesma. Nascera aos quarenta e cinco anos de idade. E lembrou-se que um dia sua mãe lhe dissera: um dia passará pelo que passo e então entenderá. Retornou à cama arrastando-se, choramingando, aos gemidos de seu marido chato. Pelo menos, sua preocupação cessara-se.


Ilustração: http://lineartandliteracy.blogspot.com.br/2009/04/sketching-frank-sleeping-in-bed.html

Comentários