Bobagens, amor e fome

Ele é bobo. Pois quando escova os dentes o creme dental distribui pontos brancos na camisa, marcantes, ainda que esfregue com um pouquinho de água. Então, ele está pronto para sair. Os outros o veem e logo disparam: que bobo!, você. Já melando-se. E ele tem cheiro de gente com candura como as flores sentidas há distância. Ele é um campo florido.

Na rua sorri ao pássaro que voa bem acima e até para os ratos que no medo do mundo pulam de bueiro em bueiro. Pois ele é bobo. É que é bom sorrir, conclui sempre. Na padaria os pães são pães felizes. Quentes, fofinhos. Ele volta na mesma pernada para casa porque sente fome. E mela-se com a manteiga. Agora, é creme dental e manteiga. Ao perceber que mais uma vez cometeu um crime bobo, ele sorri. Mas sorri levantando os ombros pois possui candura. Passa o dedo delicadamente como quem acaba de nascer e não sabe de nada do que a vida é pois ela é feita mesmo para ser vivida como criança. Criança é um anjo. E é nesse momento que o mundo o assiste com o mais singelo amor. O ato de comer é a vida. Sobreviver e comer são a vida porque é a briga mortal. Os animais ainda que vivam quase que exclusivamente para a reprodução da espécie, é pela comida que anseiam. Matam por ela. No entanto, eles são selvagens.

Já o rapaz… ele é silencioso. As mãos apanham o pão. Ele representa a criação do mundo e o futuro de sua geração. Leva à boca. Seus olhinhos estão olhando para a mãe, ansioso por leite. Ele pisca ao morder o pão melado em manteiga como se tivesse se assustado consigo mesmo. E sorri pois comer é a timidez de si mesmo porque não se come para si, come para manter-se. Mas ainda assim acha graça. Comer é um ato solidário. É a doença do mundo. O mundo é faminto!

Ele mastiga olhando para frente, para o nada. Pois nós vemos o nada, ele vê a vida. Os ombros caídos, porém firmes. As mãos abraçando o pão como quem sente medo de não ter afeto. No entanto, ele não sente medo. A boca em movimento de mastigação. É pureza. Ele é puro; e gentil. No fundo do quintal há um pomar. Plantado na terra para crescer no peito. Sozinho, ele lava a louça. Afunda a mão no copo e a espuma pula na sua camisa. Ele esparrama-se no riso. Que doce que é a bobagem da vida!

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