À porta da felicidade

Às 5h30 os seus olhos abrem. Deitada na cama, de bruços, ela não enxergava nada senão o opaco breu por detrás da janela, esta ainda bocejando da madrugada nos seus últimos minutos. Sabia, no entanto, que não deveria ter acordado tão cedo. Acontece que por bênção do relógio biológico aquele era o seu momento diário. E, sem reclamar, ela consentia. Porque gostava. Lá fora restava a atmosfera chuvosa ainda úmida e cambaleante. O dia amanhecia gradualmente a vigor dos raios solares tentavam ultrapassar as nuvens ainda densas.

Clara pôs os pés no chão frio. Lavou o rosto no banheiro, arrumou os rebeldes fios de cabelo no topo da cabeça. O rosto levemente amassado, mas o queixo levantado feito quem manda; a atitude de uma guerreira. E que poderia fazer agora? O mesmo de sempre. Cochichou consigo as diretrizes. Não poderia ir até o quarto e acordar os gêmeos, tampouco se certificar do que a patroa desejaria para o café da manhã. Este dia, domingo, era totalmente exclusivo de cada um. Eles não acordavam cedo nesse dia. Reservavam-se no direito de perder a hora. O café da manhã não existia e muito menos as obrigações rotineiras. Portanto, o domingo era sagrado como o coração de Jesus. Ele era uma bênção.

Porém, ao contrário de sentir-se inútil, Clara era imediatamente iluminada pela intensidade do seu ser. E, nesse dia mais do que nunca, pois a chuva lhe fizera carícias. Desceu os degraus da escada devagarzinho. Ver o vazio na cozinha incomodou-a levemente. Era feliz e acolhedor quando todos estavam ali em uma bagunça só: o falatório, reclamações, os pedidos das crianças faziam-na exaltar de emoção. Diante do cômodo agora preenchido apenas por ela, o coração de Clara apertou em uma dor aguda. A verdade é que se sentiu sozinha. Se lhe fosse permitido, subiria ao quarto de todos e os convidariam para um grande banquete matinal. A ideia a engoliu como a boca de uma baleia. Imaginou os meninos descendo descabelados tomando posse de suas cadeiras, a patroa sonolenta abraçando sua xícara de café, os ombros caídos ainda que disposta, relatando à Clara as novidades do trabalho. O patrão permaneceria por algumas horas dormindo. Apresentar-se-ia apenas no almoço. Como um sopro de vida a visão se dissipou da sua frente. A cozinha era apenas uma cozinha vazia. Clara remexeu o corpo para sentir-se. Estava sozinha no domingo e isso também era bom.

Rejeitava a cafeteira. Considerava um horror ter que fazer café em um eletrônico quando todo o amor, aroma e dedicação derivavam unicamente de pôr-se ao fogão. Ela abriu a porta de acesso ao quintal. Que tímido o sol!, pensou. Por mais que ele fosse gigantesco de nada tinha força contra densas nuvens. Um vento leve soprou ao seu rosto límpido – aquele clássico vento do amanhecer como que deseja bom-dia. Clara sorriu com os dentes a mostra.

Ao preparar o café arrastou a cadeira para defronte à porta do jardim. Sentiu o cheiro da manhã reservada dentro de sua xícara. Fechou os olhos. Inspirou e expirou. Inspirou e expirou. À medida que o fazia a fumaça da xícara perdia o fluxo contínuo. E que posso eu fazer senão agradecer? O dia vem, o dia chega. E aqui eu estou. Clara cantarolava os seus pensamentos. De músicas conhecia pouco. O que importava é que ela era uma compositora de si mesma. E era abençoada! pela vida em formas que, talvez, fosse incompreendida por outras pessoas.

O dia domingo reserva o ápice de tudo o que passou. Por quê? É que ele é o montante da vida. Tudo o que há cabe ele a guardar. Clara sabia disso e agradecia. Estar ali, sozinha e se sentindo infinita já estava escrito desde o dia em que nascera; desde seu abandono na infância até o bater na porta daquele casal oferecendo-lhes serviços domésticos. Sem indicações, passados, ela fora aceita. Logo ali, nos altos e baixos do Rio de Janeiro inquieto.

Clara teve precocemente o conhecimento do motivo de estar presente na vida. Clara fora criada para servir. Acontece que ela representava a plenitude do que é um ser humano: o amor ao próximo. Que dizia aquele coração as pessoas sequer imaginavam. Porém sentiam com ardor quando – já que não era dada a conversações aleatórias – se dava à honra do falar. Ecoava pelos cantos do mundo palavras firmes, doces e suaves. Clara se considerava a pessoa mais sortuda desse mundo! Peça-me o que quiser, senhora, dizia à patroa. Em resposta absoluta ela gritava rindo: menina, pare de me chamar assim! Daqui a pouco os outros pensam que estou mantendo-a em regime. Mas ela nada poderia fazer. Estava ali para servi-la de máximo bom grado, assim como a todos. E esse papel não poderia ser exercido com tamanha intimidade. Ela gostava mesmo era de ver o sorriso daqueles para cujo trabalho fora feito. Peça-me para preparar-lhe algo delicioso para que eu o assista se deliciando e então perguntar: estava bom? E depois esticar-me o prato que lavarei pensando: que ótimo!, ela era assim.

Imersa na tranquila felicidade de poder ser o que era e que tudo estava bom, Clara começou a lagrimar. As lágrimas misturando-se ao café, o coração acelerado e a respiração ofegante. Ela amava a vida. Era grata. E, principalmente, Clara amava a si mesma. Isso permitia-lhe a maior dádiva do mundo: dar amor aos outros! A menina de coração tão puro que Deus cogitou enviá-la a esse mundo com receio de que fosse ferida. Porém ele, como criador de tudo, bem sabia que isso não seria possível. Ela era de suspirar! Ah! Que paz no coração de quem tinha o prazer de tê-la por perto.

Certa vez, fora-lhe perguntado o que faria da vida quando não mais lhe fosse requerido os serviços ao que ela respondeu singelamente: todo mundo precisa de cuidados, atenção e amor e presumo que isso não será difícil de encontrar. É que ela causa silêncio.

Um gole de café e dois acertos na vida. Dois goles de café e já estava salva. Fungou baixinho e sorriu. O sorriso mais largo que já dera na vida.

Detrás de si ecoaram repentinos passos apressados quebrando o silêncio na qual a envolvia. Clara virou o rosto e, naquele momento, visualizou de um lado os gêmeos descabelados, do outro a patroa animada dando pulinhos usando nada mais que a camisola do marido e ele, ao meio, tendo posse sobre as mãos um bolo redondo com uma vela excitante fervendo, explodindo como fogos de artifícios. E lhe foi cantado feliz aniversário. E Clara sorriu e chorou. Além de amar, ela era, felizmente, também amada.


Ilustração: Pedro Miguel Lupinacci
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